9.7.09

Pina

1.7.09

Downsizing

Morena chega com dois livros para me presentear. Está se desfazendo de tudo porque vai mudar "para um cubículo."

- Cubículo? Por que?
- Capitalismo. Não fui eu que inventei.
Imagem: Palazzo Iseppo Porto

27.6.09

So what 9:22

Zanzas

Antes de chegar à Índia (por conta da intensa convivência com Peter Brook na última semana), passei por São Paulo e Roterdã.

Na primeira parada, o blog Noema, do amigo filósofo-executivo Abel Reis. Por ali, segui pelas águas de Hugh MacLeod, um praticante do ofício de acidificar os dias, como pode ser visto no cartoon acima.

Depois, encontrei b r n r d.net, o sítio do escritor e diretor de mídias digitais holandês Bernard Vehmeyer. Hiperdemocracia, patafísica, música colaborativa, subculturas, fotografia, arte e mitologia são alguns dos temas que podem ser discutidos naquela casa. Motivo para eternos retornos.

Tudo ao som de "So what", com Miles Davis fluido e divino em Kind of Blue (1959), acompanhado de seu quinteto não menos olímpico: John Coltrane, Bill Evans, Paul Chambers, Wynton Kelly e Jimmy Cobb.

O exílio na floresta

Uma das partes que mais gosto é a passagem em que todos os irmãos Pandavas morrem à beira de um lago. Ele pede a cada um: "Responda minha pergunta". Mas, como não o fazem, mata-os de sede.

Yudhishthira, antes de ter o mesmo destino, resolve atender a voz sem rosto. Aqui em texto de Brook-Carrière-Estienne:

Lago - O que é mais rápido que o vento?
Yudhishthira - O pensamento.

Quem pode envolver a terra?
A escuridão.

Quem é mais humano: os vivos ou os mortos?
Os vivos porque os mortos não existem mais.

Dê-me um exemplo de espaço...
Minhas duas mãos são uma.

Um exemplo de dor...
A ignorância.

De um veneno...
O desejo

Um exemplo de derrota...
A vitória

O que veio primeiro: o dia ou a noite?
O dia. Mas apenas porque chegou um dia antes.

Qual a origem do mundo?
O amor.

Quem é seu adversário?
Eu mesmo.

O que é loucura?
O remorso.

E revolta? Por que os homens se revoltam?
Para encontrar a beleza na vida ou na morte.

E o que para cada um de nós é inevitável?
A felicidade.

E qual é o grande milagre?
Todos os dias a morte ataca. E viveremos, pois somos eternamente. Esse é o grande milagre.

O lago é Dharma, pai de Yudhishthira e também a lealdade, a razão e a ordem no mundo. Em reconhecimento à sabedoria de seu filho, devolve a vida a seus irmãos.

OM

O Mahabharata é considerado o poema mais extenso do mundo, com cerca de 74.000 versos. Como um relato de Vyasa, ele é uma parábola sobre a humanidade e seus desejos, virtudes e vícios, através da disputa entre os primos Kauravas e Pandavas por um reino localizado ao Norte da Índia.


Uma versão belíssima foi encenada por Peter Brook. Primeiro para o teatro (1985), depois transportada para a TV e finalmente roteirizada pelo próprio Brook e por Jean-Claude Carrière e Marie-Hélène Estienne para o cinema (1989). Quem ousa cruzar os níveis de parentesco citados nos versos, tem aqui a genealogia.

25.6.09

Aula Prática




22.6.09

Um romance de geração

Cinema em nova forma: Sérgio Sant´anna por David França Mendes. Pelo trailler, inteligente solução de roteiro, diálogos bem colocados, ótimas trilha e direção de atores.
Estou de olho na estréia.

21.6.09

O sábado e as figuras da cidade - II

Sra. X é idosa (não perguntei a idade porque, sabemos, é uma das indelicadezas máximas).


Entretanto, ela é motorista de táxi há 35 anos. Seu filho mora em Brasília e seu irmão em Anchieta.
Sra. X mora com 33 cachorros e 17 gatos em uma casa na Zona Norte do Rio de Janeiro. Quando questionada se não tem medo de rodar à noite na cidade das almas e balas perdidas e se já não era hora de descansar, ela justifica:

- Preciso trabalhar para dar comida a eles.

O sábado e as figuras da cidade

"Sábado No Rio" by RosaneSerro on audioboo.fm








Listen!


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Erisvaldo veio do Ceará. Vende seu produto na saída do Metrô do Catete, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Mas só começou a ser bem sucedido depois que encheu os pulmões e mudou a maneira de anunciá-lo. Deu tão certo que até virou atração no Programa do Jô. Aqui, um pouco do que atrai cada vez mais clientes:

- Ei, você aí, quer comer minha rosca?
- Podem ficar sossegados, a rosca é fresca e o dono dela também.
- Gente, minha rosca é tão boa que já estão pedindo de quatro! (Sobre um casal que pediu 4 unidades para viagem).
- Comprem logo, estou assando minha rosca desde as cinco da manhã!
- Gente, minha rosca eu não dou, só vendo.

15.6.09

Pelas imediações da praça fatigada

Fantoches da meia-noite


Prefácio de Ribeiro Couto para o álbum "Fantoches da meia-noite", de Di Cavalcanti formado por 11 pranchas e lançado em 1921:

- Fantoches da meia-noite... Como são infelizes, trágicos!
- Infinitamente, meu caro pintor. Devemos ter o ar vagabundo dos filósofos sem importância. Começamos a dizer baixo reflexões penosas.
- Nós também somos fantoches.
- Evidentemente.
- São todos. Somos fantoches... Não vês os cordéis do destino a movê-los, a mover-nos? São cordéis imponderáveis... E o destino sabe articular-nos com habilidades de contraregra cruel...
- Se eu conseguisse cortar os meus cordéis!
- Depois não poderias mover-te sozinho.
- É verdade... não tinha pensado.
- Somos de papelão, meu caro poeta...

Saímos. Temos um último olhar para o pianista doloroso. Vamos depois procurar outras coisas pelas imediações da praça fatigada. Há lugares alegres por aqui, mas nossos olhos desencantados vêem sempre os cordéis da fatalidade.
- Nunca poderemos nos divertir. Por que será que enxergamos esses fios que movem as criaturas? Elas não sabem de nada... E nós vemos tudo...
- Será hoje, talvez, porque estamos profundos... É bastante desagradável estar profundo.
- É inútil.
(Extrato disponível na exposição "Di Cavalcanti - Um perfeito carioca", realizada pela Caixa Cultural RJ, em 2006).
*Tela "Roda de Samba" (1929), de Di Cavalcanti, dedicada a Graça Aranha

13.6.09

Em 13 de Junho

Salve Antônio!

5.6.09

Trilha desses dias

Rita Ribeiro.
Voz que pinça nossa alma do corpo e a recoloca, ordenada.

4.6.09

Drummond ventríloquo

"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: eu te amo"



Série "Grafites - 1990", de Luis Trimano: Estudos sobre
"O descanso da modelo", de Almeida Júnior (MNBA)

Geografia do mundo interior

Paixão recém-descoberta: Eduardo Recife.

Está no New York Times. No canal Turner Classic Movies. E na revista Foreign Policy

Mas é de Belzonte messss.

Barroco e digital na exata medida.
Na versão local e global.

Aspas

Woody Allen em entrevista à jornalista Tetê Ribeiro, publicada na revista da Folha de S. Paulo no último domingo:


- Sou neurótico mesmo, não preciso usar eufemismos.

29.5.09

Questão de Pascal

Lembrada pelo físico e professor Luiz Alberto Oliveira em sala de aula:

"Se o espaço é infinito, não há um onde.
Se o tempo é infinito, não há um quando.

Quem somos nós?"

Imagem: "A ponte de Heráclito", de René Magritte

Aforismo de Dalai Lama

Registrado na sala de espera de minha brilhante analista:


"Nosso propósito não deve ser prejudicado pelas oito preocupações mundandas: ganho ou perda, prazer ou dor, elogio ou crítica e fama ou infâmia."

Imperdível!!!

A retrospectiva dos filmes de Chris Marker no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. Trata-se da primeira mostra do documentarista, fotógrafo, cineasta e escritor francês no Brasil.


Em minha lista estão:
La Jetée (Chris Marker, França, 1962, 35mm, PB, Fic, 28min) - “Esta é a história de um homem marcado por uma imagem de infância. A cena que o perturbou por sua violência, e cujo significado compreenderia apenas muito mais tarde, ocorreu na plataforma principal do aeroporto de Orly, alguns anos antes do início da III Guerra Mundial” (narração-off do filme). Única obra completamente ficcional de Marker, mítica fonte de inspiração de boa parte do cinema moderno, “Os dozes macacos” de Terry Gilliam baseou-se diretamente nela.

A.K. Retrato de Akira Kurosawa (A.K Portrait d’Akira Kurosawa, Chris Marker, França, 1985, 35mm, cor, Doc, 75min) - Documentário sobre a realização do filme “Ran”, no qual é apresentado detalhadamente o processo de trabalho do lendário Akira Kurosawa. Retrato de um cineasta trabalhando, é ao mesmo tempo uma homenagem e um diálogo com a obra do Sensei, sob a forma de um diário de filmagem dividido em dez seções rotuladas com caligrafia japonesa.

Junkopia - San Francisco (Chris Marker, França, 1981, 35mm, cor, Doc, 6min) - Na praia de Emeryville em São Francisco, durante as filmagens de “Sans Soleil”, Marker filma obras de artistas desconhecidos que utilizam restos marítimos para fabricar estranhas esculturas. Com a participação de colaboradores como Arielle Dombasle, Tom Luddy e Michel Krasna, cria uma impressionante colagem sonora. Ganhou o prêmio César de melhor curta-metragem documental.

Sem Sol (Sans Soleil, Chris Marker, França, 1982, 35mm, cor, 100min) - Uma mulher desconhecida e invisível lê e comenta as cartas que recebe de um amigo fotógrafo que percorre o mundo e se sente particularmente atraído pelo Japão e pela África, dois pólos extremos da sobrevivência. Obra mestra do cinema de ensaio, justaposição de itinerâncias, lembranças e tempos, é uma esplendorosa compilação das constantes do seu autor, onde a memória das imagens e das emoções brilha como nunca.

O fundo do ar é vermelho (Le fond de l’air est rouge, Chris Marker, França, 1977, 16mm/35mm>DVD, Doc, 180min) - Um grande ensaio global sobre uma década decisiva na história política. Começando por 1967, o ano que Marker considera o ponto de não-retorno, são repassados os conflitos do Vietnã, da Bolívia, Maio de 68, Praga e Chile, discutindo inclusive o destino da Nova Esquerda. O filme divide-se em duas partes, cada uma dividida em duas seções.

As estátuas também morrem (Les statues meurent aussi, Alain Resnais e Chris Marker, França, 1953, 35mm, PB, Doc, 30min) - A arte da África negra, que trata o tema da vida e da morte e que nasceu por motivos religiosos sucumbe às exigências comerciais e converte-se em artesanato, mas só até que apareça uma nova forma artística: a arte de combate. O filme toma corpo a partir do trabalho conjunto entre Resnais e Maker, primeiro em um ensaio sobre a fratura e perversão que o olhar ocidental exerce sobre a arte africana ao desligá-la do contexto e a significação original que lhe deu sentido, depois em um panfleto cinematográfico, no mais nobre sentido da palavra, de denúncia aberta contra o colonialismo, o que acarretou sua proibição pela censura francesa durante dez anos.

Descrição de um combate (Description d’un combat, Chris Marker, França/Israel, 1960, 35mm>Beta, cor, Doc, 60min) - Uma viagem pela topografia de Israel, dos kibbutzs às minorias árabes, os judeus ortodoxos e os turistas que retratam a luta interior do povo israelita por obter uma nova visão de si mesmos e do seu país. Narração a cargo de Jean Vilar, o filme ganhou o Urso de Ouro de melhor documentário no Festival de Berlim em 1961.

O túmulo de Alexandre (Le tombeau d’Alexandre, Chris Marker, França, 1993, Hi-8>Beta, PB e cor, Doc, 118min) - O tributo de Marker a seu ídolo e amigo, o diretor soviético Alexandre Medvedkine, sobre quem já havia filmado em 1971 “Le Train em marche”. O filme adota o markeriano formato epistolar, sete cartas a seu recém-falecido amigo, nas quais evoca sua obra e a história do cinema e da também recém-extinta União Soviética.

Um dia de Andrei Arsenevich (Une journée d’Andrei Arsenevich, Chris Marker, França, 1999, 16mm e vídeo>Beta, cor, Doc, 56min) - Realizado para a série de televisão "Cinéma de notre temps", é um retrato do cineasta soviético Andrei Tarkovsky, falecido em 1986, traçado conforme sua vida terminava e a batalha com a burocracia soviética que tinha por fim permitido que o seu filho pudesse vê-lo antes de morrer. Marker filma, cúmplice e próximo, este encontro, Tarkovsky em seu leito de morte e a filmagem de “Sacrifício”, em cuja montagem trabalhou até o final, especialmente neste último plano, “talvez o mais difícil da história do cinema”.

A felicidade (Schastye, Alexander Medevdkine, Rússia, 1934/1971,35mm>Beta, PB, 70min) - Filme dirigido por Alexander Medevdkine, o grande ídolo de Marker, foi restaurado para sua reestréia em 1971. Chris Marker participou ativamente da restauração e assina a edição de som deste filme.

Boina azul (Casque Bleu, Chris Marker, França, 1995, 27min,vídeo>Beta, cor, Doc, 27min) - Reúne suas impressões sobre a missão dos ‘boinas azuis’ franceses na Bósnia, a partir do testemunho do novo médico François Crémieux, que se apresentou como voluntário para realizar ali seu serviço militar.

Um prefeito em Kosovo (Un maire au Kosovo, 2000, Chris Marker, França,vídeo>Beta, cor, Doc, 27min) - Retrato do Bajram Rexhepi, prefeito de Mitrovica, que no passado foi sargento no Exército de Liberação Kosovar.

Que belê!

A propósito, a exposição “28 milímetros”, trouxe uma sensação boa de que vivo em uma cidade que preza e admira as artes visuais. Os olhos das mulheres espalhados por aí, pranchas do Jazz de Matisse acessíveis em Santa Teresa, o melhor da escultura de Houdon no Museu Histórico Nacional e a maravilha de ter à disposição dos olhos Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Portinari, Anita Malfatti, Volpi e Milton Dacosta da Coleção Gilberto Chateaubriand no MAM (sendo que alguns dos quais se multiplicam no MNBA e na Chácara do Céu).

E ainda saber que no Rio moram Lindonéia e muitos dos beijos do Gerschman; o retrato de Gonzaga Duque feito por Eliseu Visconti, a
morena atônita de Rodolfo Amoedo e uma bela safra de bananas do Antonio Henrique do Amaral.

Também, como ser diferente? O Rio de Janeiro é cor, topografia, mistura. E o olhar é parte integrante da natureza do seu espaço urbano.

*Ou seja:


































27.5.09

Assim falou Spinoza

(Trechos da Ética, Trad. Tomaz Tadeu, Editora Autêntica, São Paulo, 2009)

Proposição 19 - Quem imagina que aquilo que ama é destruído, se entristecerá; se, por outro lado, imagina que aquilo que ama é conservado, se alegrará.

Proposição 23 - A mente não conhece a si mesma senão enquanto percebe as idéias das afecções do corpo.

A tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor.

Proposição 39 - Quem tem um corpo capaz de muitas coisas tem uma mente cuja maior parte é eterna.

Fotos a partir da exposição "28 milímetros - Mulheres", do fotógrafo francês JR, realizada na Casa França Brasil e em locais de circulação do Rio de Janeiro*

26.5.09

Saída


Id

Sol sobre madeira.

Técnica mista
2009

Superego

Sol sobre madeira.

Técnica mista
2009

Fogueira

Sol sobre madeira
Técnica mista
2009

Fragmento

Sol sobre madeira
Técnica mista
2009

Móbiles

Sol sobre madeira
Técnica mista
2009

Rudeza

Sol sobre madeira
Técnica mista
2009

Renda


Borboleta

Sol sobre madeira

Técnica mista
2009

Paralelas


Tropicália


Mito da caverna


Meio-dia


Auto-exílio

As mesmas traças que devoraram as orelhas de Yoko Ono estavam famintas por outras palavras. Por isso chamei um exterminador e deixei minha casa, num recuo tático para garantir meu território.


Assim, exilei-me temporariamente no Hotel Mama Ruisa, em Santa Teresa. Lá, além de vigiar minhas janelas, fiquei muito tempo mirando um céu absurdamente azul e sem nuvens, os bem-te-vis, os urubus, os cachorros, os desenhos de Jean Cocteau, as formigas, o gato e os detalhes do casarão de 1912.

Também tirei 80 fotos durante uns 60 minutos do sol sobre o piso de pinho de riga, o janelão e os vasos de cerâmica. Acho que inaugurei uma nova fase como retratista (amadora).

Ah sim! Na chave do quarto estava Santo Antônio...

Receita

Gay Talese, em entrevista à correspondente Marília Martins, a propósito de sua participação na próxima Flip e de seu projeto de escrever suas memórias conjugais com sua esposa Nan, com quem convive desde 1958:

-Qual a receita para permanecerem juntos 50 anos?
R: Paciência e bom sexo.

25.5.09

Faça

1. Música

Obra Riso
Mantenha-se rindo por uma semana.

Obra Tosse
Tussa por um ano.

Obra de voz para soprano
Grite.
1. Contra o vento
2. Contra a parede
3. Contra o céu

Obra de gravação I
Obra Pedra
Grave o som de uma pedra envelhecendo

Obra Linha
Desenhe uma linha.
Apague uma linha.

Obra linha
Desenhe uma linha com você mesmo.
Continue desenhando até desaparecer.

2. Pintura

Pintura para ser construída em sua cabeça
Observe três quadros cuidadosamente.
Misture-os bem em sua cabeça.

3. Evento

Obra vôo
Voe.

Obra mapa
Desenhe um mapa para se perder.

Obra caixa
Compre muitas caixas de sonho.
Peça sua mulher para selecionar uma.
Sonhem juntos.

5. Objeto

Obra Chaminé
Construa três mil chaminés e as alinhe
de modo que pareçam uma sob um determinado ponto de vista
e três mil de outro.

Obra Telescópio
Faça uma escultura e coloque-a numa montanha
para as pessoas verem com telescópios.

7. Dança

Obra Dança
Dê um baile.
Deixe as pessoas dançarem com as cadeiras.
....................................................................................

Gostou?
É Yoko Ono.

Seus poemas - compilados no livro Grapefruit (Sphere Books Limited, 1970, cuja edição original aqui de casa está parcialmente comida pelas traças - o que certamente agradaria a autora) - assim como o restante de sua obra foram recentemente analisados por Whitney Frank no artigo "Instrução para destruição: a arte performática de Yoko Ono", publicado na edição de Fevereiro da revista Intersections, da Universidade de Washington (Seattle).

The ballad of John & Yoko

Acabei de ler a biografia do John Lennon (John Lennon: A vida, Cia. das Letras, 840p, 2009) brilhantemente escrita pelo jornalista Philip Norman. Durante três anos, o coleguinha inglês recebeu de Yoko passe livre para vasculhar documentos e arquivos e ter contato com personagens chave como seu filho Sean Lennon, Neil Aspinall (ex-roadie dos Beatles, falecido ano passado, aos 66 anos), Derek Taylor (ex-assessor de Imprensa dos Beatles) e outros. ´


Norman conta fatos nunca antes revelados e passa longe do relato chapa branca publicado por Hunter Davies em 1968. O resultado foi tão bom e objetivo que Yoko retirou seu apoio ao livro, por ocasião de sua edição.

Há várias passagens instigantes e surpreendentes. Ao fim, nos damos conta que – apesar de toda exposição visceral e pública que John promovia de suas dores e desencontros – durante 20 anos nos relacionamos apenas com um Lennon midiático.

E mais: que ao lado do homem inseguro, paranóico, ansioso, ególatra, competitivo, superficial, impressionável e cruel (porém também gentil, generoso e muito talentoso) estava uma mulher lúcida.
Entre erros e acertos, ela viveu com uma visão clara da natureza de seu companheiro e optou por decisões que pudessem garantir mais segurança aos dois. Inclusive deixar seu trabalho como artista plástica para tornar-se uma mulher de negócios a fim de preservar o patrimônio amealhado desde os Beatles.

As respostas que importam

De qualquer modo, uma expressão utilizada por Schmidt ficou rondando minha semana: “encontrar as respostas que realmente importam”.

Estou nesse movimento há dois meses, desde que larguei minhas malas na escadaria do Canal Grande. Veneza, quando quer, pode ser dissimulada. E se existe disposição para ir além da Piazza San Marco e de Rialto, prepare-se, pois seus becos labirínticos o engolem e é necessário entregar-se. Perder o controle. Permitir-se ser guiado pelo caminho.

E esse é o início da enorme e inesperada viagem existencial: o labirinto se impõe e você reluta. Insiste, se perde. Arrisca, perde. Se enraivece e se perde. Luta e perde. Até ceder. Quando se depõem as armas, o caminho se descortina.

Depois de percorrer praças, vielas, canais e jardins dias a fio, voltei ao meu Rio.

Aqui, as respostas que realmente importam estão nas sessões de análise. Nos aforismos de Spinoza. Nas aulas de Luiz Alberto Oliveira sobre o desenvolvimento do pensamento e seu impacto na História da humanidade. Nas vivências experimentadas através da pintura e da arte contemporânea a que tenho me submetido semanalmente para sanar a fome inesgotável do espírito.

E ainda: na observação do céu e das árvores. Nas discussões cada vez mais intensas com minha amiga Tesla sobre o desvelar do conhecimento. Nas palavras que voam desgovernadas e caem no meu colo com sentido. E no encantamento inesperado e crescente por um bebê (que vem a ser minha sobrinha). Nunca antes eu havia me apaixonado por um bebê que não fosse aquele produzido por mim. De repente, ao vê-la e tocá-la, não é preciso mais buscar respostas. As perguntas se dissolvem.

Humano demasiado humano

Sensacional também é ouvir uma advertência para se “criar relações humanas”. Uau! Será que já nos afastamos tanto de nossa espécie que precisamos reaprender a nos relacionar uns com os outros? Tudo bem que o fascínio pela tecnologia aliado à necessidade de controle (e uma grande parcela de medo, claro) nos fez interpor cada vez mais máquinas e dispositivos nas relações sociais.

Hoje, nos falamos muitíssmo: pelo celular, pelo Orkut, pelo Facebook, pelo MySpace, pelo Flickr, pelo Twitter, pelos blogs, pelo Second Life, pelo MSN, por torpedos, por e-mail... Mas não nos vemos nunca!

No fundo, é importante que Eric Schmidt faça esse alerta. Afinal, trata-se de uma autoridade do mundo virtual. Um case de sucesso. Alguém totalmente entranhado nas nervuras do ciberespaço que pode ser ouvido e respeitado pela juventude.

Mas que seja rápido. Não gostaria de ter bisnetos carimbados com o selo “100% proveta”.

Foto: Filipa Carvalho

Por uma vida mais analógica

No último dia 18 de Maio, o presidente do Google, Eric Schmidt, disse a seis mil graduandos de uma turma de formatura da Universidade da Pennsylvania, que eles precisam “encontrar as respostas que realmente importam” e para isso eles deveriam se afastar do mundo virtual, viver uma vida analógica e “criar relações humanas”.

- Desliguem seus computadores – chegou a bramir Schmidt, durante a cerimônia.

A declaração do presidente do Google é sensacional. Equivale ao dono do aviário aconselhar seus consumidores: “Comam mais peixe. É mais nutritivo, eles são uma fonte natural de Ômega 6 e vêm sem hormônios.”

7.5.09

Perdição


Vizinhança


Itália clássica


Mão única


Rumo


Varanda


Boas vindas


6.5.09

Onde terminar


Veneza. Primeira visão.

5.5.09

Kaiserpanorama

Monumental. Exposição "Zauber der ferne" (Lugares mágicos e distantes), no Museu Viena. Toda iconografia do imaginário exótico dos viajantes do século XIX.


Ver Sacrum

Prédio Secessão: construído por Joseph Olbrich, em apenas dois anos (1897-1898), para abrigar as obras do movimento de vanguarda que chocou a aristocracia austríaca. Hospeda o Beethoven Frieze, de Klimt.

Biblioteca Nacional


O preferido de Trotsky,



Freud, Adler e Robert Musil ("O homem sem qualidades"): Cafe Central.

Hotel-Sacher-com-torta




Tudo sobre.

Depois da chuva



Karlsplatz.

Amor verdadeiro



Vênus e Marte, no Belvedere de cima

Pequena empresa



(Ou , se preferir, lavanderia).

Corporação


Tempo



O divã está em Londres. Mas este espelho - assim como a mobília da sala de espera - permanece na mesma posição em que era utilizado por Freud, na janela do consultório onde clinicou por 47 anos.

Além do princípio do prazer


Edição 1920. Estante Dr. Sigm. Freud

Bergasse, 19


E culpa


4.5.09

Vigilância


Simetria


Exatidão


Por onde começar


Viena.

25.4.09

Grândola a tua vontade


Jurei ter por companheira


À sombra duma azinheira


Em cada rosto igualdade


Em cada esquina um amigo


Dentro de ti, ó cidade


O povo é quem mais ordena


Terra da fraternidade


Grândola, vila morena


22.4.09

Sugestão

"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito."

(Epicuro, em Carta a Meneceu)

21.4.09

Sabedoria popular

Provérbio italiano:

O amor se alimenta apenas do amor.

Provérbio francês:
O mais disperdiçado dos dias é o dia em que não rimos.

Provérbio japonês:
Arroz e chá frio se toleram, mas olhares e palavras frias, não.

Provérbio espanhol:
Não procure um gato de cinco patas.
Provérbio chinês:
Aprenda a usar a pena e você nunca precisará usar uma caneca de mendicância.

Instantâneo


A tela Arrufos, de 1887, atualmente no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, é uma das obras-primas de Belmiro de Almeida, pintor do fim do século XIX.

Che, versão Soderbergh

"Tu mano gloriosa y fuerte
sobre la historia dispara
cuando todo Santa Clara
se despierta para verte."

("Hasta siempre", 1965)

A primeira vez que ouvi o clássico de Carlos Puebla também foi minha primeira vez em Cuba, há 19 anos. Estava no aeroporto de Cayo Largo, onde a torre de controle era um cubículo sobre quatro pernas de pau. Um trio entoava a canção que me arrepiava inteira. No meio dos turistas, um senhor idoso, negro, mirava o horizonte onde havia um enorme poster com o nome do país. Fotografei.

Che? Visto por um diretor americano? OK, mesmo sendo ex-indie com "Sexo, Mentiras e Videotape" e mostrando alguma consciência social em "Erin Brokovich" e "Traffic", Soderbergh não deixa de provocar estranheza. Seria ele capaz de transferir para o sal de prata toda passionalidade da alma e da história cubanas?

Pois o filme emociona. Achei seu Che com Del Toro um tom abaixo. Ou seria minha fantasia de um revolucionário mais sangüíneo e vigoroso? Mas há muitos acertos: trazer Camilo Cienfuegos para a linha de visão do público não-cubano, com seu humor, suas troças e carisma. E encenar a batalha de Santa Clara.

É curioso ver, nesses tempos de guerras cirúrgicas, "smart bombs" (bombas de precisão com munição guiada), e foguetes termobáricos (bolas de fogo capazes de voar em curva!, mais detalhes em http://www.cdi.org/terrorism/new-weapons.cfm) que há 50 anos, um telefonema era suficiente para colocar os comandantes inimigos frente a frente para tratar das condições de rendição.

E sem dúvida é muito bom concretizar em imagens todo o imaginário da formação do Movimento 26 de Julho, o cotidiano da guerrilha em Sierra Maestra, a tomada de Santa Clara e a ida para Havana. E ouvir o pensamento de Che, que já foi considerado datado e hoje é mais atual do que nunca. Por exemplo:

* "Quem vive no sistema capitalista está preso numa jaula invisível. Há o mito de que um homem pode triunfar por esforço próprio. Mas a vontade das pessoas está sendo determinada por forças que elas sequer conseguem ver."

* "Estamos conscientes de que representamos a esperança de uma América não rendida."

E também há máximas, como:

* "Prefiro enfrentar um soldado do que um jornalista."
* "Apenas ganhamos a guerra. A revolução começa agora."
* "Esse grande povo disse 'basta!' e começou a andar."

É - como diria o protagonista a seu intérprete em Nova York - chiquito, tú eres tremendo...